O pote de bênçãos
*Este post foi publicado originalmente em Março de 2024. Na ocasião eu o achei muito pesado e o desativei.
Você já teve dias em que você queria sumir? Assim, não existir, desaparecer, não sentir nem pensar em nada?
Ontem foi um dia assim pra mim. Já acordei com dores físicas e a cabeça cansada dos dias de trabalho estendidos e o dia foi acontecendo, sem se importar com meu estado. Problemas corriqueiros, atritos familiares, o stress de manter uma casa com quatro pessoas e quatro bichos funcionando, um mal humor crescendo exponencialmente, a sensação de impotência.
Lá pela metade do dia eu já tinha desistido de qualquer chance de melhora, de esperança, eu só queria que o dia acabasse. Fui pra cama cedo mas demorei pra dormir, estava agitada e a cabeça a mil, pensando nos diálogos destemperados, de novo a sensação de impotência.
Hoje, logo pela manhã, com o coração apertado, me deu aquela vontade que me ocorre às vezes: um ímpeto de jogar tudo fora. É uma coisa boa porque me traz qualidade de vida praticar o desapego, logo eu que sou tão apegada a muitas e muitas coisinhas. Eu não faço arte há tempos, a vontade que eu tenho neste momento é de desmanchar meu atelier na lavanderia, de jogar fora ou doar um monte de coisas. Tenho também consciência de que não vou fazer isso. Ao me deparar com algo de valor que sei que vou precisar em algum momento, mesmo não fazendo arte com frequência, eu coloco o pé no freio e reconsidero toda a minha decisão. Falando em colocar o pé no freio, voltar a dirigir tem sido um grande desejo, uma grande necessidade e também um grande problema pra mim. Só de pensar me dói o estômago.
Mas voltando ao ímpeto de desentralhar, estava sentada em frente à minha mesa - trabalho em esquema de home office - e pensei: vou começar por aqui mesmo, o que eu posso jogar fora daqui? A mesa nem estava bagunçada ou cheia de coisas mas vi, atrás do suporte do monitor, um vidro, bonito até, de doce de leite Aviação, aquele que eu vi pela primeira vez num mercado em Monte Verde nas férias de 2022 e que na ocasião pensei: nossa, que embalagem bonita! Ele estava devidamente limpo e sem rótulos e foi comprado porque 1) eu queria experimentar uma receita de churros na air fryer e 2) eu queria aquele pote! Tanto que pedi explicitamente para meu marido, que é quem faz as compras de mercado, para comprar um doce de leite Aviação, tinha que ser Aviação, e não podia ser aquela embalagem de plástico sem graça não, tinha que ser a bonita, de vidro. Olhando em retrospecto, eu estava parecendo o Gru naquele filme que tem o vilão que é dublado pelo Sidney Magal (o 2?) e que o Gru descobriu a identidade do vilão mas estava mesmo incomodado com o filho galanteador dele, por quem a Agnes estava apaixonada. Ao reportar a descoberta ao seu chefe, Gru dizia, incisivo, batendo a ponta do indicador na mesa: tem que prender ele, e aquele filho dele, o filho, tem que prender o filho!!Viajei, gente, me desculpem.
Então, quando comprei o pote, já idealizava para ele a finalidade de ser um pote de bênçãos. É uma ideia que vi há muitos anos compartilhada pela escritora Elizabeth Gilbert e coloquei em prática na época. Procura aqui no blog, tem um post sobre. Vi minha sobrinha Brenda compartilhando um e me deu vontade de voltar a ter. Começo de ano, eu fico cheia de energia e de vontades de começar coisas.
Lembrem do meu estado de espírito do começo do post, meus caros leitores. Peguei o pote com raiva e pensei: vou jogar tudo fora! O vidro não, o vidro eu vou colocar para usar na cozinha, mas esses papeizinhos, vou jogar tudo fora! E me pus a ler, com a certeza de que ia achar tudo aquilo uma grande bobagem. Mas não era. Cada coisa escrita era mesmo uma benção. Eram coisas singelas e verdadeiras. Eram coisas pelas quais eu era grata quando escrevi e, a maioria, pelas quais ainda sou.
A lição que eu levei disso tudo: que a vida é feita de momentos, que “tempos difíceis passam, assim como os bons” como diz uma música do Scorpions. Que a gente tem que começar cada dia do zero, mesmo com o peso dos acontecimentos e sentimentos passados, afinal eles são passado! Mesmo que os dias pareçam iguais, como no dia da marmota em O Feitiço do Tempo, nossa parte da jornada é tentar fazer cada dia melhor, sermos melhores, mais leves, perdoar e nos perdoarmos. Nos afastar de situações e pessoas que não agregam. O resto é a vida acontecendo, não dá pra carregar o peso do mundo.
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Foto do post Tenha um pote de alegrias (ou pote de bençãos), de 2017, que mostra o meu pote de bênçãos original. |
Atelier Luka Luluka
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